Resenha || Quem tem medo do feminismo negro? | Djamila Ribeiro

por Bruna Carolina

Djamila Ribeiro é uma filosofa, feminista, pesquisadora e mestra em Filosofia política pela Unifesp. Autora do livro Quem tem medo do feminismo negro? e também do livro “O que é lugar de fala?” (tem resenha aqui).

O livro foi publicado em 2018, pela editora Companhia das Letras. Possui 148 páginas. É uma leitura de fácil compreensão. Nesta obra, Djamila reuniu diversos textos publicados antes no blog Carta Capital de 2014 a 2017. E ao final do livro, Djamila indica diversos links para conhecer novos autores com a mesma temática em que ela aborda.

Querer se valer do discurso de liberdade de expressão para destilar racismo, machismo, transfobia ou se esconder por trás do argumento “É minha opinião” é criminoso. Racismo é racismo, machismo é machismo, mesmo que venha na forma de opinião. E devem ser combatidos.

Na introdução, intitulada “A máscara do silencio”, Djamila traz relatos sobre sua vida desde a infância, contando casos sobre racismo e machismo. Neste primeiro capitulo, já é possível sentir uma grande empatia pela autora.

No decorrer dos capítulos, há diversos temas que são abordados, onde há citações de outros autores e até mesmo a opinião pessoal da autora. Ela traz dados históricos de como determinado movimento surgiu seja no Brasil ou fora. Além disso, traz casos de racismo ou machismo em que foram expostos pela mídia.

A filósofa cita sem medo diversas personalidades da TV e da internet que cometeram algum ato racista, como: Miguel Falabela e Kéfera (Youtuber). E também casos como o de Maju e a importância de falar sobre todo racismo que a jornalista vem enfrentando desde que ganhou espaço na rede Globo.

Djamila fala com maestria sobre diversos tópicos e temas que hoje são de extrema importância e que merecem ser discutidos, além do assunto central que é o feminismo, temas como:

  • Sexualização e corpo da mulher negra: No trecho abaixo, a mesma faz uma crítica a série “Sexo e as negas”, e traz diversos questionamentos, mas principalmente sobre a invisibilidade da artista negra na TV brasileira.

Mulheres negras historicamente são tratadas com desumanidade, e nossos corpos, como meras mercadorias.

  • Racismo reverso: há diversos debates em relação a este tema no mundo e Djamila o aborda de uma maneira nada sutil, a mesma não abre margens para que haja dúvidas de que o racismo reverso não existe.

É errado xingar alguém, mas para haver racismo deve haver relação de poder, e a população negra não está no poder. Acreditar em racismo reverso é mais um modo de mascarar o racismo perverso com que vivemos. É a mesma coisa que acreditar em unicórnios, com o diferencial de que se está causando mal e perpetuando a desigualdade.

  • Blackface: é uma pratica conhecida no mundo, mas para quem não conhece, blackface é o termo em inglês dado a pessoas brancas que pintam o rosto com tinta preta e fazem um personagem caricato de um individuo negro. No Brasil, existe a Nega maluca que muitos utilizam como fantasia de carnaval e usam o argumento de que é apenas uma “homenagem ou piada”.

Já disse isso e repito: o humor não está isento da ideologia racista. Isso é engraçado para quem? Falta criatividade, então se apela as mulheres negras para fazer graça? Não precisamos desse tipo de “homenagem” nem o queremos. É hora de ter consciência do racismo no país e lutar para combate-lo.

  • Cotas raciais: assim como racismo reverso, cotas raciais é um tema com grande debate no Brasil, porém é pouco compreendido. E, claro que a autora não deixou este assunto passar.

Cotas raciais são necessárias porque este país possui uma dívida histórica para com a população negra. Dizer-se antirracista e ser contra as cotas é, no mínimo, uma contradição cognitiva, e no máximo, racismo. Ou se lida com isso, ou se repensa e questiona os próprios privilégios. Fazer-se de vítima é reclamar de exclusões que nunca sofreu.

Quem tem medo do feminismo negro? aborda outros temas também, como o lugar de fala, a importância da mulher negra no poder, e também a diferença do feminismo, pois há uma diferença nas pautas de mulheres brancas e negras.O

Quem tem medo do feminismo negro? é uma grande contribuição para debates feministas e raciais, além disso, é uma forma de incentivar que a cada dia mais leiam obras de autoras negras.

É uma leitura rápida e fluida, com palavras e parágrafos de fácil entendimento. É uma obra que vale a pena ler para conhecer e entender sobre o movimento feminista negro, racismo, desigualdade social e racial, além de dicas de excelentes autoras negras. Desta forma, indico para todas as pessoas sejam homens ou mulheres, brancos ou negros, pois é uma leitura necessária e que merece mais reconhecimento.

 

 

 

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