A Fúria | Silvina Ocampo || Companha das Letras

por Nilda de Souza

A fúria é um daquele livros que a gente precisa ler várias vezes ao longo da vida, pois acredito que cada leitura trará um novo significado, uma nova percepção. 

A Fúria é a reunião de 34 contos da escritora Argentina Silvina Ocampo, uns mais longos, outros bem curtos. Em todos eles perpassa uma certa perversidade. Acho que é isso que os conecta. Não sei se essa é a palavra mais adequada – perversidade – mas o fato é que as crianças, por exemplo, não são criaturas inocentes, como a gente costuma acreditar. Os personagens são em sua maioria crianças e idosos.

A linguagem é outro ponto alto. Não posso dizer que é uma linguagem complexidade, mas também não posso dizer que é simples. As construções das frases, dos períodos são tão sofisticados que, como eu disse no inicio, os significados não vêm todos numa primeira leitura. É estupendo o que ela faz com a linguagem. Fica claro que a autora foi uma mulher de grande cultura. Acho que é um dos objetivos de quem escrever é ter esse domínio de linguagem. 

O primeiro conto, A lebre dourada, é um tanto quanto nonense, e um dos que mais me agradou, junto com A continuação, O mal, Inferno e a A fúria. 

Em A lebre dourada, Jacinto está contando para uma criança a história de uma lebre que tem comunhão com Deus e com os anjos intrépidos. Um dia, vários cachorros correm atrás dela para matá-la, mas ao longo da corrida tudo vai ficando maluco e a lebre acaba confundindo os cachorros. 

Eu tenho verdadeira fascinação por metáforas que evocam tipos de olhar. Uma das minhas preferidas é “olhos de viva mosca”, Guimarães Rosa, conto Desenredo.

Silvina tem preferência por “olhos de hiena’. Ela usa esse recurso em diferentes contos.

“Se o vento ruge a ti feito um tigre e a pomba angelical te olha com olhos de hiena, se um homem requintado que cruza a rua vai vestido de andrajos lascivos;”

“Seus olhos brilhavam, só agora me dou conta, como os das hienas. Fazia-me lembrar uma das Fúrias.”

Ah, e o título ‘A fúria” tem dois sentido.

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