Maternidade: um romance | Sheila Heti | Resenha

por Nilda de Souza

Maternidade: um romance foi uma leitura que gostei muito, pois conversou com questões que eu refletir por vários anos até decidir ter meus filhos. Acho que um dos pontos mais interessante do livro é que aborda o fato da sociedade machista impor à mulher o dever ser mãe.  

E essa carga que nos é imposta vem de formas diversas. Às vezes sutil, outras vezes nem tanto. Quantas vezes você já ouviu frases do tipo: “Você não quer ter filhos?” “Você só vai conhecer o verdadeiro amor quando tiver um filho.” “Quando você estiver mais velha vai se arrepender de não ter tido um filho.” “Você não gosta de crianças?”

Essas frases iniciam bem cedo na vida das mulheres. Mas se você já tem 40 anos, elas passam acontecer quase todos os dias. É opressor. Esse tipo de cobrança é feita pelos nossos pais, pelos nossos amigos, por desconhecidos.

Quando penso em todas as pessoas que querem proibir o aborto, isso parece significar apenas uma coisa: não é que eles queiram uma nova pessoa no mundo, o que eles querem é que aquela mulher tenha o trabalho de criar um filho, mais do que querem que ela faça qualquer outra coisa. Há algo de ameaçador em uma mulher que não está ocupada com os filhos. Uma mulher assim provoca certa inquietação. O que ela vai fazer então? Que tipo de problemas ela vai arrumar?

Sheila Heti

A sociedade oprime a mulher que não quer ter filhos

O grande mérito de Maternidade é que traz os conflitos da mulher que não quer ter filhos. Acho que a maioria dos livros sobre o tema focam na grandeza, na grande dádiva da maternidade e, ainda há livros que falam para não romantizar a maternidade.  Maternidade aborda outro lado da questão.

Maternidade é um romance com características autobiográficas. Com uma narrativa em primeira pessoa, você pode jurar que se trata da vida da autora, Sheila Heti, levando em consideração a idade da personagem narradora, a profissão e a ambientação. Acho que podemos chamar de autoficção.

A estrutura narrativa do livro é interessante, apesar de eu ter acho que depois de um tempo ficou cansativo e um pouco repetitivo, mas não é algo que chegue a atrapalhar a fluidez da leitura. O livro inicia com uma nota, falando que a narrativa é inspirada numa técnica de adivinhação chinesa de perguntas e respostas utilizando três moedas, chamada de I Ching. As primeiras perguntas são: 

Esse livro é uma boa ideia?  Sim 

Esse livro vai ajudar na minha alma? Sim

Estou conduzindo meus relacionamentos de forma errada? Não

Bom, a partir dessas perguntas é que a personagem vai discutir vários temas, desde a relação com o companheiro, a relação com as amigas, todas mães e ela não. Ficamos sabendo um pouco da vida da vó e da mãe da personagem. A vida das duas e as decisões tomadas por elas têm forte influência nas decisões tomadas pela personagens.

É um livro indicado para quer entender melhor seus conflitos sobre maternidade. Para quem pretende ter filhos, para quem não quer e para quem já tem. 

(Livro cedido em parceria com a Editora Companhia da Letras)

 

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6 comentários

No Conforto dos Livros agosto 23, 2019 - 1:58 pm

Olá!! 🙂

Eu confesso que nao conhecia este livro ainda, mas fiquei curioso com a eliura. Que bom que trouxeste a tua opiniao.

Contudo, e mesmo sabendo que a estrutura do livro e boa, lamento esses momentos mais cansativos e devo dizer que nao sou grande fa de livros muito autoniográficos.

Boas leituras!! 😉
no-conforto-dos-livros.webnode.com

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Maria Paula de Barros agosto 23, 2019 - 7:52 pm

Eu acredito muito que filhos são bênçãos, mas acredito também que a maternidade é um peso que nem todas querem/aguentam.
Acho que a leitura desse livro super válida, já o quero.

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Michelle Russo agosto 25, 2019 - 4:48 pm

Que dica de leitura incrível, adorei, espero ter a oportunidade de ler em breve, e também irei recomendar a minha irmã ela está em sua primeira gestação! <3

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Alice Lacerda Montiel agosto 25, 2019 - 10:30 pm

Oiii Nilda

Pra mim parece ser uma leitura diferente do que costumo ler, pra sair da zona de conforto. Eu gosto de livros que trazem essa reflexão ao leitor, que falam com quem tem filhos e tb com quem não tem e nem quer ter, é como um grande debate que permite várias conclusões. Eu tenho dois filhos e amo ser mãe. Se há pressão não saberia dizer porque desde pequenininha ser mãe sempre foi um sonho, desde a época das bonecas que eu brincava. Mas acredito que em muitos lares isso se torna uma pressão, principalmente se a mulher não deseja ter filhos e possuí outros objetivos.

Beijos, Alice

http://www.derepentenoultimolivro.com

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lilian farias agosto 26, 2019 - 5:37 pm

Oi, Nilda.
Tudo bem? Sempre uma alegria visitar seu blog. Estou com esse livro aqui, comecei a ler e acabei não concluindo, mas confesso que sua resenha me motivou, estava procurando alguém que o tivesse lido para conversar sobre a obra, acredito que estou entrando no grupo de entender os conflitos da maternidade de forma mais visceral.

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Clayci Oliveira agosto 27, 2019 - 12:45 pm

Eu não cheguei nos 40 ainda, mas por estar na casa dos 30, as perguntas são frequentes.
E não basta falar que vc não quer ser mãe, tem que justificar a sua resposta e ouvir calada (se não quiser se estressar) as opiniões contra.
Eu adoro crianças, amo os meus sobrinhos… mas não tenho esse desejo de ser mãe. Caso isso mude, farei de tudo para viver a maternidade, mas não me sinto pronta e pronto.. rs
Gostei da proposta do livro

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