Resenha || Não me abandone jamais | Kazuo Ishiguro

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Resenha || Não me abandone jamais | Kazuo Ishiguro

Não me abandone jamais foi uma leitura cheia de nuances.  Este é um livro de um ganhador de um Nobel, gente! Não é pra menos.

Então, falando das nuances. Para começo de conversa, Não me abandone jamais é ficção científica. No entanto, as questões de ciência e tecnologia ficam bem em segundo plano. De cara eu achei que era só mais uma história sobre questões adolescentes. Isso porque até então eu não havia lido nada do Ishiguro. Mas aí eu comecei a desconfiar que a havia camadas e mais camadas de significados não tão perceptíveis ao leitor desavisado (meu caso).

Depois eu passei a ter certeza (nunca tenha certeza de nada) que Não me abandone jamais é uma história que não entrega o ouro fácil. Acho que é uma característica do autor, ter uma narrativa controlada, limpa. Não há palavra sobrando. O que é bem legal, pois o leitor terá que buscar o significado no não dito. Abre mais possibilidades para interpretações.

Não me abandone jamais é narrado por Kathy H. Ela revisita as memorias que vão desde tempo em que viveu numa especie de escola interna-orfanato, junto com os melhores amigos, Ruth e Tommy, até quando todos já são jovens adultos. Essa escola tem algo incomum: todos os alunos são clones. Isso mesmo clones. Eles foram criados para doar órgãos.

Não me abandone jamais: passividade

Acho que se me pedissem para definir Não me abandone jamais em uma palavra eu diria: passividade. Explico. Esses alunos clones foram criados numa casa de campo sem grandes seguranças que os mantivessem presos, cuidados por tutores. Depois, quando já são adolescentes, eles vão viver em outro lugar (casa abrigo), até com uma certa liberdade, mas ninguém pensa em fugir. Eles aceitam o destino sem grande questionamento. Quando eu estava lendo só conseguia pensar: por que eles não fogem? Os personagens não se rebelam. O tempo está acabando, fujam – eu pensava.

O fato é que eles aceitam todos os mecanismos de repressão. Isso me deixou angustiada. Há até um certo orgulho para ver quem consegue doar órgãos até finalizar.

A protagonista, a Kathy, é a mais passiva de todos. Ela aceita o destino de servir resignada.  Ela é passiva até em relação aos sentimentos. Eu ainda não havia falado, mas há romance. Só que não é uma tórrida história de amor. É tudo muito contido. Na verdade é um triangulo amoroso. No entanto,  a gente consegue perceber que o amor sempre esteve presente, mesmo Kathy não vendo. Ou melhor, não agindo.

Eu sentir raiva da Ruth em muitos momentos. Ela não é má, mas é cheia de caprichos. E muito egoísta. Ah, uma coisa interessante é que, como são as memoria de Kathy, é nítido que o que ela relata pode não ser de fato o que ocorreu. O clássico narrador não confiável.

Não me abandone jamais é uma leitura que pode não agradar a todos. A narrativa é suave, não tem reviravoltas e com um final que eu disse: acabou?

O que eu posso dizer para convencer você o ler esse livro? Leia sabendo que na verdade essa é uma narrativa que se propõe a refletir: e se o homem não tivesse criado a bomba atômica e sim desenvolvido a clonagem?

Para finalizar, em 2010, Não me abandone jamais ganhou uma adaptação homônima para o cinema, que conta com Kathy (Carey Mulligan), Ruth (Keira Knightley) e Tommy (Andrew Garfield) . O filme está disponível na Netflex. Eu assisti e quero fazer uma resenha livro versus filme.

Uma dica: Se você quer conhecer a obra do Ishiguro, comece pro Vestígios de dia. Eu já li e gostei muito mesmo. Neste livro também tem a questão da memória como tema.

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Título: Não me abandone jamais
Título original: NEVER LET ME GO
Autor: Kazou Ishiguro
Tradução: Beth Vieira
Editora: Companhia das Letras
Capa: Alceu Chiesorin Nunes
Páginas: 344
Lançamento: 16/10/2017
ISBN: 9788535926552

 

About the author
Literamaníaca, seriemaníaca. Mãe de dois Dragões. Em metamorfose. Rezo para os deuses novos e antigos. Minhas jornadas são nas estrelas. A força está comigo. Não sei se tudo isso é verdade, só sei que foi assim.

16 Comments

  1. Oii. Já li críticas sobre esse livro, sempre estão falando bem.
    Recentemente eu li “O conto da Aia” e entendo você quando fala que ficou agoniada com a história e o conformismo dos personagens, eu senti a mesma coisa com o livro que citei. Por um lado isso é bom porque nos leva a uma auto reflexão, sobre a nossa vida e até a sociedade onde vivemos.
    Não sabia que tinha filme, vou atrás pra assistir 🙂

    Beijos.

  2. Olá!
    Admito que o que me deixou ansiosa para conhecer a obra foi justamente a adaptação cinematográfica. Eu assisti há alguns anos e fiquei bastante confusa com o enredo, pois até então não tinha tido contato com temáticas de ficção científica que fossem mais reflexivas e dramáticas. Tenho muita vontade de rever o filme. E agora com o livro em mãos também estou com muita vontade de lê-lo logo. E essa edição está linda, né? Eu amei a lombada prata combinando com a capa. Achei maravilhosa!

  3. Adoro a forma que você resenhou. Não me abandone jamais é um ótimo título e a capa é linda tb. Ela me lembrou Da Vinci. Adorei o layout do blog. Obg pela indicação. Bjos.

  4. Olá! Nossa, me deu uma aflição só de ler sua resenha. Eu ficaria louca lendo esse livro, porque primeiro, naõ conseguiria aceitar que eles simplesmente aceitam “viver” assim. Segundo, fico impaciente com leituras monótonas, sem grandes acontecimentos. Me parece ser interessante, mas não sei se leria.

    Um beijo, Pri :*

    Por Amor aos Livros

  5. Oiii

    Realmente parece ser daqueles livros de “ame ou deixe-o”, não é uma leitura fácil, de respostas prontas, daquelas que a gente pega e logo saca tudo de primeira. Como vc bem disse é de uma escrita cheia de detalhes, nuances e certamente é aquele livro para se ler em um momento certo, quando estamos mais desconectados, dispostos a embarcar em algo novo, a descobrir narrativas diferentes. A dica é boa, mas nem tenho certeza de se seria o “meu” livro… Questão de arriscar né?

    Beijokas

    http://www.derepentenoultimolivro.com

  6. Olá!
    A capa me remete a anatomia humana e meus tempos da faculdade. Se não lesse sua resenha jamais saberia sobre o que se tratava. É um bom livro, mas talvez não conseguiria ler em uma pegada só, teria que ler devagar já que me parece não ser tão fluida.
    Bom saber que tem o filme na Netflix, gosto de assistir adaptações para comparar com a obra física.
    Beijos!

  7. Olá, tudo bem?
    Eu tinha muita curiosidade de ler este livro, desde que assisti ao trailer do filme. Sempre prefiro ler o livro antes, então, tudo que vi da adaptação foi só o trailer mesmo. No entanto, peguei um mega spoiler desse livro e, infelizmente, não vou poder ir descobrindo aos poucos as camadas do livro como você. Acredito que esse seja um dos aspectos mais interessantes do livro e, por isso, acabei desanimando um pouco de ler.
    Porém, sua resenha está ótima e reacendeu um pouco da minha curiosidade, pois a escrita do autor parece ser realmente incrível (ele não ganhou o Nobel sem motivo né?). Vou deixar a dica anotada para ler futuramente.
    Beijos!

  8. Oi, Nilda. Eu gosto bastante do gênero, mas faz tempo que não leio um livro de ficção científica, tenho assistido a muitos filmes, mas livro faz tempo!!! Eu gostei da premissa desse e fiquei muito curiosa, parece que é uma obra que eu vou gostar se for ler.

  9. Oi, tudo bem?
    Eu não conhecia esse livro ainda, mas de cara a capa me deixou um tanto curiosa, sabe? Por essa razão fiquei bem animada com sua resenha, mas ao ler a mesma, fui ficando com um pé atrás, pois não é o tipo de livro que eu costumo ler. No entanto, o mesmo apesar de não ter reviravoltas e o final ser desse jeito, parece ser uma obra interessante mesmo.

    Beijos :*

  10. Olá!
    Eu estou morrendo de vontade de ler esse livro. Adorei poder conferir a sua resenha! Parece realmente uma obra extraordinária, não e´a toa que ganhou o prêmio Nobel, não é? Não sabia que tinha o filme também, com certeza depois da leitura vou achar interessante assistir também.
    Beijos.

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